quinta-feira, 7 de abril de 2016

Auto retrato II


O tempo é tempo que não liga à gente,
tira, trai, morde, mente.

Trabalha todo o ano o sol
Sofre, luta, treme, forte
e quando o mundo lhe vira as costas
o tempo diz que é tempo de morte.

A luz já é fabricada azeda,
a lua pronta está para seguir.
E o sol todos os dias se eleva
quando o melhor é deixar-se cair.

Não te levantes, musa
para quem te usou.
Não posso tocar bem
se morta já eu estou.


Lia.

Desculpem, não publico aqui à uns anos. Talvez porque pensei que não escrevia suficientemente bem para estar nestas andanças.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Soneto - A rocha




Na planície vazia, longe do mundo
rebola a rocha, sofrendo erosão.
Erodida pelo gelo lá profundo
esquece ela agora a vida e o coração.

No verde o bicho encontra a paz
derrubando ervas, matando flores.
Funesto é o peso que a rocha trás
da àgua das lágrimas e dos amores.

E assim se encontra na existência
do último paraíso perdido da alma
onde a boémia é livre de consciência...

É o selvagem que tem luz
pela vivacidade da deemência
desse seu sonho de não se reduz!

Lia.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Interlúdio




17 Anos fiz hoje. Oh! Os anos da boémia, da esperança transcendente, da espera atormentada por um amor maior. O sonho nas guelras, os futuros insensatos de perdição! As cascatas de saudade que escorrem por entre seu ninho de virgem, as pedras de melancolia do coração que se cravam cada vez mais para fundo, na esperança divida de algum dia alguém o sarar.

Ano de grandes extremos. Parece que amor e morte serão sinónimos, estes irmãos da barafunda. Conseguirei sair eu dos teus braços, mãe, para abraçar o mundo? Poderei ir talvez para um convento, morreria aos olhos da terra… Seria um romeiro perdido à procura de mim mesma. Ou voarei para longe! Por minha vez então ganhar um pouco de liberdade… Mas parece que as asas crescem devagar, se é que algum dia virão a crescer mais do que já estão. Na minha mente esvoaçam aves prateadas, ricas em metal que, mesmo assim, voar pelos prados verdes de meus olhos conseguem elas. São cegonhas buscando família, são pombas buscando paz.

Gaios gemendo por liberdade.

E então e os tubarões, mãe? Ah! Esses não os conheces, não os chegaste tu a conhecer na minha inocente e pueril infância. Esses mais tarde chegaram para comer restos de carne viva da minha alma… Esse drama feito de seda que é pecado… A morte do meu Deus na sua atitude de Zeus insensível e intocável.



Lia.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Escrava da perfeição



E aqui estou, escrava da própria perfeição. Escrava dos números, das letras, da paixão. Das horas de estudo, do tumulto do mar, de esperanças que ardem e de sonhos a naufragar.
Hoje ainda não a vi. Quem? A felicidade, a escrava da boemia. 
Pois! Queria... Queria eu ser Deus, roubado ao horizonte, a noite eterna do amor.
Só que não. Sou demasiado sol ardente que se consome com a própria dor.
Só que sim. Sou brasa de satã pequenina como uma flor.
Sou diva pintada em quadros de embalar, sou atum enlatado em jogos de brincar.
Pois. A magia sempre vem com um preço.
Dança, juventude! Dança que vou esperar... Tu e promessas que não devo tolerar. Dança, beleza! Porque não te exilas também? Tu, paixão... Porque não morres de desdém?...
E tu, espelho? Teu dever era ser um amante leal. Contudo, continuas a fazer-me mal.
Sonho mil amores insensatos, mil estrelas eu quero ter. E olho para ti, céu. Porque não mas dás? Porque serei eu obra de Satanás?
E vou rimando com o vento de lá de fora... Tic-tac, está quase na hora!!
Serei eu ninguém??...A rapariga que tem de ter dezanove a português, que nunca o conseguirá devido a um teste de desasseis e que chora desalmadamente como se não houvesse um amanhã.

A pior escravidão no mais negro coração.

Lia.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Bullying interior



Tenho a chaga do amor, tenho a chaga da vivência.
A antiga canção de dor apaga toda a inocência.
O demónio é a luz, a água vagabunda,
a vodka no inferno e o feitiço de incoerência...

Ó guerra, ó ódio, ó lógica inútil,
mas quem és tu para poderes entrar?
Cortas, secas, vives de fruta mole,
de maldade de outros e de contos de engatar!

Revolto-me contra números e contra ti,
contra a beleza transcendente, sorriso imortal.
Revolto-me contra todo o universo em si...
Revolto-me. Pois não paras de me fazer mal.

A sonata não renasce, não pode renascer
de cinzas do passado que não me deixam viver.
E aqui te peço, lógica, morte. Sê como eu...
Sê o que antes eras: boémia e fria como o céu.

Tal céu onde Deus morre, queimado
pelos gritos de sufoco e por minha dor.
Oh anjo, onde te escondes nesse teu véu?!
Eu quero voltar a ter a minha luz interior!...

Lia.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Nárnia


Finalmente a humanidade eu encontrei. Tiraste-me a apatia, tu e essas tuas sardas que me matam, esses teus olhos cor de mar, um azul incandescente que me sufoca e que arde como duas estrelas em formação. Esses lábios de rosas e de sonhos arrancam a minha utopia, e, cada vez que te vejo ardo no inferno mais profundo do meu olhar.
Oh... E esse cheiro... Exótico! Cessante, selvagem! Escondido na boemia, reflectido na orla do bosque, no cume mais alto da montanha. Esse teu sabor a laranja mascarrada, o toque a floresta desgrenhada. Pois... A sereia anseia por matar e o homem quer ir ao mar. Bosque? Mar? Preciso de ti em todo o lugar.
Então?! Parece que chegámos a Nárnia! No guarda-roupa se esconde a maior emoção. Cor de mel, cor de céu, cor de Deus. O respeito e a paixão e a tua alma de mar, de vento... Dizem que os olhos a comandam, deve ser por isso mesmo que nunca estarás comigo por completo, és demasiado complexo para resistires às forças da gravidade.
Claro... O fado. A nostalgia extridente... O passado é a minha cegueira, a realidade é o sonho. Contudo, o presente está menos ambíguo contigo a meu lado. A estética menos obscena e a política menos fútil de um governo maior. Será por muito tempo?

O heterónimo da Lia.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Cancro



Truz-truz. Está alguém
a ver a janela de ninguém.

O branco sol baila no céu...
Volto a Dezembro outra vez.
O bouquêt congela, e meu véu
mais branco fica neste mês.

Eles esperam, sem esperança
a neve e o crivoso casamento.
Eu choro como uma criança
e o vestido morre com o vento.

Truz-truz. Está alguém
a bater na janela de ninguém.

A mágoa e a doença pairam
no ar, na alma, na emoção de cada um.
É dezembro! E a paixão? Algo
 bom?! Muito pouco ou nenhum.

Com meu vestido molhado
subo eu para o altar.
Oh... Tudo está acabado...
Passarei a vida a chorar!

Truz-truz. Está alguém
a abrir a janela de ninguém.

O matrimónio é para a vida
e esta morte é para mim.
Casei-me com a doença...
Apaixonei-me pelo fim.

Truz-truz. A janela abre!
A fruta podre vai entrar.
Em minha casa começa a nevar
E esperarei que Dezembro acabe
pois o inverno há-de acabar.

Lia.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Naufrágio


E ali o homem naufragou
na gruta profunda de um mar perdido.
Gruta de paz? Mar de calma?
O grande buraco na sua alma
que tal como o mar fora esquecido.

Três dias num pequeno bote ele ficou,
três vezes a mísera vida ele salvou
e, no final do terceiro dia
finalmente terra ele encontrou...
Deus deu-lhe alguma alegria
mas o demónio até a terra lhe tirou.
Haviam árvores de cores celestiais,
fluorescências excêntricas pelo lago de saudade,
fruta que apodreceu pela própria realidade,
e tudo fora um sonho, pois riquezas tais
apenas existem na mente de um pobre com ansiedade.

Rios calcou até cair de dor
provocada pelo seu mais puro amor.
O mar não chorou, nada lhe deu.
Então, o pobre homem olhou para o céu.

"- O que queres mais, Deus sem coração?
Alá, Jesus... és apenas uma ilusão!
Tudo me tiraste, que queres mais de mim?!
Porque não me deixas, porque não me dás um fim?..."
E logo caiu do céu um raio de paixão
mas na fossa mais profunda o homem encalhou,
esquecendo-se do raio e de quem o ajudou.

Lia.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Estrela


Uma nova estrelinha eu encontrei
mas ela não quis saber de mim.

Passado! Mágoa! Que perdido coração...
Não vale relembrar tantos dias de ilusão.
Não vale chorar pelo passado que passou,
não vale viver do amor que folgou!

Oh... E uma a uma as estrelas apanhei,
guardei-as bem guardadas neste coração.
Pensei que seria feliz, que viveria, pensei
ao ter uma estrela que me cantasse uma canção.

Então, uma nova estrelinha no céu eu encontrei
pois a todas as outras eu não dava emoção
mas ela não quis saber de mim
e a morte me deu antes do fim.

Estrela, estrelinha... Para quê o teatral?
Para quê tanta bagunça se és alguém que me faz mal?

Passados meses outra estrela encontrei
mas dela eu não quis saber.
Bem aprendi com a sua irmã
que não vale a pena sofrer.

Lia.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

As asas crescem devagar



Sem nada mais aqui para te dar
fiz-me à estrada para me poder encontrar.
Sem amor, sem culpa, sem sonhos, sem fim,
decidi conhecer a alma que há em mim.

Que surpresa... flores a desabrochar
e vidas tiradas por este bravo mar!
É o mar revolto que existe dentro de mim
num tamanho exílio que ousa não ter fim.

Sou utopia, sou boemia e calma...
Sou a morte que existe na tua alma.
E na estrada eu percebo porque não quero ficar,
porque as asas se limitam a crescer devagar.

É triste, surdo, o barulho deste mar
que nunca fora limpo, este azul do teu olhar.
Que mais posso eu querer? Espero por morrer
para que, um dia, me possas perdoar.

Gosto de desaparecer, de à estrada me fazer
porque a estrada realmente sabe quem sou.
Oh. Diva. Vida? Porque me fizeste sofrer
se a estrada desprezada nunca me julgou?

Lia.